segunda-feira, julho 26, 2010

Família

Acordei às 3:50 da madrugada, depois de ter passado uma noite em claro me divertindo com amigos num sítio em Tinguá. Não foi falta de sono que me acordou, mas um sonho ruim. Acordei triste e irritado, nada me fazia esquecer o sonho.

Sonhei com meu pai, ele dizia que meu avô teria dito a ele que telefonaria quando fosse sua hora ... logo depois ele acrescenta que minha prima Neusinha teria sonhado que meu avô tinha telefonado.

Fiquei mal por uns minutos pensando nisso, depois levantei e fui beber água. Orei a Deus por meus pais e familiares, quero-os no céu quando o dia derradeiro chegar. Mas também pedi justiça quanto ao tratamento que meu pai tem recebido do Governo. Explico:

Meu pai é comerciário. Trabalhou na roça por muitos anos, até ser vencido pelo cansaço e vir tentar a vida no Rio de Janeiro. Veio trabalhar no bar do meu tio Mário (ele é o coroa da foto da comunidade da Família Antonieto no orkut).

Mau pai é um cara corajoso. Veio para Belford Roxo - RJ, a cidade mais violenta do mundo naquele tempo, praticamente com uma mão na frente e outra atrás, morar com meu tio e ganhar a vida. Chegou trabalhando. Seu primeiro serviço foi limpar o sangue do bar após uma briga em que alguém matou outrem ... Eu teria voltado pra Minas na mesma hora.

Ele ficou.

Trabalhou de domingo a domingo, dormiu na casa do meu tio, dormiu no bar que os dois abriram um pouco mais afastado do primeiro, continuou cortejando minha mãe por carta, até que a convenceu a casar. Ela veio pra ajudar, servir de base de apoio para a vida nova que ambos contruíriam.

Um dia ainda peço a ambos pra publicar as cartas ou tentar transformar em filme. Eu ainda não as li, mas meu pai recitou uns pedaços uns anos atrás. É uma história que merece ser contada pois mostra as agruras pelas quais passaram os que expandiram esse país.

Trinta e tantos anos se passaram, meu pai ainda trabalha de domingo a domingo e, uns anos atrás, com sessenta e tantos anos de idade, resolve se aposentar. Como tem pouco menos do tempo mínimo de contribuição pedido pelo INSS (3, 4 meses), já dá entrada em sua aposentadoria. Como ele sempre pagou sobre 5 salários, pensa em ter uma vida mais tranquila e estável financeiramente.

Negada.

Pede recisão.

Negada.

Pede revisão novamente. Anexa provas, comprovantes. O processo roda pelos postos do Rio de janeiro inteiro. Muitos meses se passam. Um ano e tal depois, alguém percebe que ele realmente tem direito a se aposentar. Aposentam-lhe.

com UM salário mínimo.

o mesmo de um indigente, pobre coitado qualquer, que jamais pagou um centavo pro INSS, mas tem o direito de receber alguma coisa do governo para sua sobrevivência.

Meu pai não voltou pra Minas depois de ver um homem morrer na sua frente no primeiro dia de trabalho, não ia desistir tão fácil.

Pediu revisão do benefício que, obviamente, estava calculado errado. O Luíz, irmão da Luciane, contador, refez os cálculos, a diferença era de mais ou menos uns 300%.

Os "analistas" "peritos" do INSS negaram. "Tem alguma coisa errada com seu benefício, mas pelo sistema eu não consigo dizer o que é..." Eu, nós - meu pai, minha irmã e eu, ouvimos isso da boca de um deles.

Eu trabalho com T.I. a quinze anos. Sou funcionário público a onze. Se vocês acham que eu fiquei irritado deviam ver minha cara vermelha. A culpa sempre é do sistema. A cor da grama que os "analistas" comem, se mudar, mata uma multidão. Mas a culpa é do sistema.

Próximo passo, Tribunal de Justiça.

Nais de um ano de processo depois, o INSS se convence de que seus cálculos estão errados. Isso depois de três diligências à APS Belford Roxo. O número do Pis pelo qual meu pai foi aposentado estava diferente do número pelo qual meu pai sempre pagou o INSS... E a culpa é do sistema.

Não, meus amigos, ainda não terminou. Esse reconhecimento foi há uns seis meses. Desde então, nenhuma novidade. O INSS reconheceu que errou, mas o processo está nas mãos do Juiz Marcio Sother, que provavelmente não o viu ainda na pilha gigante que aparece em seu computador.

E meu pai lá no bar, de domingo a domingo.

Um comentário:

Lu Motta disse...

Foi bom te reencontrar por aqui...

beijos

Lu Motta